CAVALO, da quase curitibana Michelle Moura, foi mostrado em junho desse ano em formato de ensaio aberto, no Point Éphémère, em Paris.
De acordo com esse formato, o evento se tratava então de um acontecimento informal, sem os aparatos de luz e com a economia de parte dos acessórios da bailarina. Dessa forma, tratava-se de um momento de estudo e de preparação da própria peça que Michele Moura dividia conosco, que estávamos ali para ver seu trabalho.
É a própria Michelle, já vestida com seu figurino, que vem nos dizer que o trabalho conta com uma luz sombra, especialmente desenhada para a peça; mas que dadas as limitações técnicas do espaço a apresentação desse dia não teria jogo de luz. Ela nos adverte também que no seu figurino faltam acessórios. É ainda Michelle que nos apresenta sua parceira de cena, a musicista Raphaëlle Latini, que vai operar e mixar o som ao vivo. Informações transmitidas, Michelle nos avisa que a peça vai começar dentro de alguns minutos.
Nós somos um pequeno grupo a estar na sala do Point Éphémère, quase todos conhecidos da artista. Apesar da não espetacularização do momento, é por um espetáculo que nós, público amigo, esperamos. Afinal, basta que alguém mostre, execute algo e que outros o assistam para que o mínimo do contrato performático se cumpra. Processo, work in progress, ensaio aberto de uma obra já pronta e estruturada, pouco importa, a partir do momento que há público e performer, o evento "já é". Risco e desafio para o artista, esses momentos de partilha do próprio trabalho fora de condições ideais é sempre a ocasião de se constatar e de expor as fragilidades do trabalho, assim como suas potencialidades e sua força. Michelle assumiu o risco e nos presenteou com seu esforço. Mas esforço de quê ? O que mostra ou o quê quer mostrar CAVALO ?
Na linguagem do Candomblé, religião afro-brasileira, cavalo é o sujeito que se deixa, que se faz habitar por alguém outro que não ele mesmo. O cavalo é aquela pessoa em que uma entidade, um espírito se encarna. Cavalo é então o hospedeiro de uma alteridade.
Com o recurso de um microfone, a voz, o som da respiração, e outros barulhos produzidos pela boca e garganta de Michelle, são distorcidos e devolvidos ao público na forma de um mix do além. Esse trabalho, o da captação e difusão dos sons distorcidos e mixados é grandemente tributário da comunhão e do entendimento entre Michelle e Raphaëlle. Trata-se de um fino e arriscado trabalho de improvisação que, claro, possui suas marcas e pontos de referência, mas que se dá diferentemente a cada apresentação, eu suponho. Trata-se de um trabalho de negociação de sensibilidades e percepção.
O cavalo aqui na peça que leva esse nome é a própria bailarina. É Michelle que vai nos sugerir um estado de incorporação. Gestos, postura e claro, a presença do som, são os atributos dos quais Michelle se serve para causar estranhamento, para nos propor um corpo habitado por outro, por uma alteridade que desumaniza sua forma e seus gestos.
O que Michelle coloca ou tenta colocar em jogo com CAVALO é a noção ontológica do trabalho do intérprete de se tornar outro quando se está em cena, quando se interpreta um papel ou uma situação. Por meio de suas estranhas posturas, dos gestos crispados, nervosos, cortados, dos estranhos sons que são difundidos na sala, Michelle se apoia no trabalho de desidentificação a si mesmo, que implica o regime do trabalho em arte. Por esse dispositivo cênico, a bailarina se toma como matéria de um discurso poético como sendo uma outra 'pessoa' ou 'coisa' que não ela mesma.
Esta reflexão nos leva até a obra do filósofo francês Paul Ricouer, entitulada 'Soi-même comme un autre', que tão bem problematizou o que a ficção produz em nós. O bailarino ou o intérprete toma seu próprio corpo como matéria da criação e faz emergir questões como identidade e alteridade. Assim como aquele que observa, o espectador, se toma como próprio instrumento da sua observação, investindo-se naquilo que vê. Trata-se aqui de ir na direção do outro diferente de si mesmo e de produzir poesia e sentidos, mas esse outro não é necessariamente um outro 'exótico', mas, antes de tudo, o outro próximo de si mesmo, o outro íntimo, o outro em si mesmo.
Isso nos faz pensar no 'Je est un autre', de Arthur Rimbaud, que não se trata de um grito de desespero e nem de um delírio da imaginação, mas sim da revelação de uma alteridade constitutiva, a afirmação positiva de uma realização. Exacerbando no estranhamento de seus próprios gestos, sons e posturas, Michelle nos oferece de presente a sua própria estranheza constitutiva. E assim ela parece encarnar, sobretudo, a condição primeira de qualquer intérprete ao trabalho: a de manifestar sua própria alteridade constitutiva e de se desidentificar de seus padrões de movimento e posturas habituais.
CAVALO, de Michelle Moura, 2010
Um projeto : Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial
Esta criação faz parte do Projeto « 6 por ½ dúzia » contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna, 2009.
Apoio: Centre National de Danse Contemporaine de Angers, direção de Emmanuelle Huynh, Ménagerie de Verre dans le cadre de Studiolab, Programme de Résidences Internationales Ville de Paris/Institute Françai